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domingo, 24 de novembro de 2013

Com 'farda' de preso, Genoino dá entrevista exclusiva à revista IstoÉ

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Levado às pressas para o Incor de Brasília, na tarde da quinta-feira 21, José Genoino recebeu duas notícias ao mesmo tempo. A primeira veio dos médicos. Ao contrário do que se temia no início, ele não havia sofrido um infarto do miocárdio. Enfrentava uma nova crise de pressão alta, igualmente preocupante, mas previsível num paciente em sua condição. A segunda novidade veio do Supremo Tribunal Federal. Como o próprio Genoino, seus advogados e a procuradora-geral da República em exercício, Ella Wiecko, solicitavam desde a segunda-feira 18, o ministro Joaquim Barbosa, presidente do STF, concordou com o pedido de mudar seu regime prisional.

Em vez de cumprir seis anos e sete meses de pena em regime semiaberto, como ficou definido no julgamento da Ação Penal 470, Genoino foi autorizado a mudar-se para o regime de prisão chamado “domiciliar ou hospitalar”, considerado compatível com um estado de saúde classificado como “grave” ou “ gravíssimo” por todos os médicos que o examinaram nos últimos dias. Com a mudança, deixará de ser obrigado a dormir todas as noites na cela de uma prisão, com direito a sair apenas para trabalhar durante o dia, passando a viver internado num hospital ou mesmo em casa. Joaquim Barbosa fez questão de ressalvar que sua decisão tem caráter “provisório”, esclarecendo que irá aguardar um novo laudo – o quarto em cinco dias – para anunciar uma resolução definitiva.

Ao ser informado da mudança, Genoino reagiu em tom de alívio: “Então quer dizer que não vou voltar para a Papuda?”, perguntou à mulher, Rioko, referindo-se ao presídio de Brasília onde se encontrava internado desde o sábado 16. Horas antes de se dirigir ao Incor, ainda na Papuda, Genoino concedeu entrevista exclusiva à ISTOÉ, quando falou do drama de sua terceira prisão. “(Quando entrei na prisão) Vieram à minha cabeça imagens terríveis de quando fui preso durante a ditadura. Depois de uma viagem de um dia inteiro, totalmente desnecessária, ficamos quatro horas em um pátio porque não sabiam onde nos colocar. Se não sabiam onde nos colocar, por que nos fizeram viajar?”, questionou.

Num país que acompanhava com apreensão a evolução da saúde de Genoino desde a noite da sexta-feira 15, quando ele se apresentou de punho erguido à sede da Polícia Federal, em São Paulo, numa cena que marcou o início das prisões de uma primeira leva de 11 condenados na Ação Penal 470, a decisão de Barbosa teve caráter reconfortante. Não deve ser vista, porém, como sinal de que a condenação tenha sido amenizada. A pena continua igual. A menos que, como outros condenados, Genoino consiga livrar-se da condenação por “formação de quadrilha” no julgamento do STF sobre embargos infringentes, sua situação legal será a mesma de antes.

O novo regime de prisão é fruto da compreensão de que, diante de seu estado de saúde, as razões da medicina deveriam orientar a letra fria do Direito, pois uma vida humana estava em jogo. Fumante inveterado a ponto de consumir três maços de cigarro por dia até quatro meses atrás, hipertenso que há muitos anos toma medicamento para controlar o mal, Genoino em julho foi vítima de uma dissecção da aorta, patologia que costuma produzir hemorragias graves, infarto e acidente vascular cerebral. Depois de uma cirurgia de oito horas, saiu do Sírio Libanês com uma prótese de 15 cm no tórax para substituir uma parte da aorta. “Nesta situação, é preciso que o paciente tenha sua pressão arterial mantida nos níveis adequados”, explica o cardiologista Ricardo Miguel, da Sociedade de Cardiologia do Rio de Janeiro.

Lembrando que a rotina da prisão pode “desencadear picos de hipertensão, que podem produzir um novo rompimento da aorta”, Ricardo Miguel acredita que “a melhor coisa para um paciente como ele é ficar em casa.” Com pequenas variações, um diagnóstico semelhante foi firmado por Roberto Kalil e Fabio Jatene, dois dos maiores cardiologistas do país, que atenderam Genoino no Sírio, e por Fábio Daniel, que o examinou, a pedido na família, a uma da madrugada de sábado, em Brasília. Os laudos deixaram claro que o deputado era um prisioneiro de risco – e a ninguém interessava a ocorrência de uma tragédia de conseqüências políticas imprevisíveis.

Verdadeira exceção numa sociedade polarizada e dividida, onde grande parte da população tem ojeriza por políticos profissionais, Genoino é um parlamentar de sete mandatos que colecionou um número imenso de admiradores nas várias fatias do espectro político, sejam aliados, sejam inimigos. O deputado do PT foi condenado a 6 anos e 11 meses de prisão, em regime semiaberto, por corrupção ativa e formação de quadrilha. Durante o julgamento do mensalão, três ministros que votaram por sua condenação – por ter, como presidente do PT, avalizado os empréstimos fictícios dos bancos BMG e Rural ao PT e participado de reuniões com dirigentes de partidos aliados em que se tratou de apoio político ao governo Lula em troca de vantagens financeiras – não deixaram de ressalvar o caráter admirável de Genoino e sua biografia com tantas passagens exemplares. Assinado por unanimidades da literatura, como Antonio Candido, e da música, como Chico Buarque, circula pela internet, com apoio de 11 000 pessoas, um abaixo-assinado que diz que “José Genoino é um homem honesto, digno, no qual confiamos. José Genoino traduz a história de toda uma geração que ousa sonhar com liberdade, justiça e pão.”

Durante a semana, criticada pelos militantes do PT por manter um silêncio absoluto em relação ao destino dos condenados da Ação Penal 470, a presidenta Dilma Rousseff demonstrou preocupação com a saúde de Genoino por “razões humanitárias.” Na verdade, a presidenta tem uma afeição pessoal pelo deputado e por Rioko, guerrilheira do PC do B como o marido, quando as duas ficaram presas sob a ditadura militar. Quando, em função da ação penal 470, Genoino deixou o posto de assessor especial no ministério da Defesa, Dilma fez questão de receber o casal num jantar, no Alvorada. “É claro que a presidente se importa com o destino e o estado de vários condenados” afirma um assessor do Planalto. “Mas ela tem uma ligação com Genoino”, reforçou.

A melhor explicação para uma admiração com origens tão diversas encontra-se, provavelmente, numa ladeira no bairro paulistano do Butantã, endereço do maior patrimônio material do deputado. É um sobrado germinado, em formato de salsicha, comprado há três décadas com financiamento-padrão da Caixa Econômica. Os móveis são simples, mas acolhedores e confortáveis. O índice de luxo é zero e foi ali que o dono da casa criou um filho, uma filha. Uma outra filha de Genoino, nascida de uma relação fora do casamento, sempre morou com a mãe, em Brasília. De correspondentes estrangeiros a prestadores de pequenos serviços, todos visitantes se surpreendem ao descobrir a identidade do dono da casa. “Pensei que deputado só morava em mansão,” admitiu um funcionário de uma empresa de TV a cabo que, em função de uma política permanente de contenção de todas despesas que podem ser eliminadas, fora chamado para desinstalar um ponto num quarto que a primogênita Miruna desocupou quando foi passar uma temporada na Espanha.

Normalmente, Genoino mostra-se constrangido quando o interlocutor ameaça fazer um elogio que no fundo é um diminutivo – falar bem de um sujeito pelo simples fato dele não ter-se tornado ladrão. Considera-se um lutador da política. “Jamais deixarei a luta política. Posso ter que mudar a forma, o local e o uniforme, mas o sentido da minha vida é lutar por sonhos e causas. Nunca lutei por questões pessoais”, disse à ISTOÉ. Sempre atuou à esquerda. Deixou a guerrilha do Araguaia fazendo a autocrítica da luta armada. Tornou-se um dos cérebros do Partido Revolucionário Comunista, uma organização efêmera, em sua existência, mas duradoura em militantes que fizeram boa história – como o governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro e a ex-ministra e adversária Marina Silva, o mártir da ecologia Chico Mendes. Mas na década de 1990 andava tão moderado entre os petistas que sentia-se mais à vontade para dialogar com estrelas do PSDB, inclusive o presidente Fernando Henrique Cardoso, e Luiz Eduardo Magalhães, nome em ascensão no PFL baiano até ser derrubado por um infarto fulminante. 

cariri ligado

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